EDITORIA: CIDADES


Atualizado em 2017-05-09 10:50:51

Violeiros promovem o resgate da viola caipira

Instrumento, que quase foi esquecido, hoje é reverenciado por meio da Orquestra de Violeiros de São Lourenço



Foto: reprodução da internet


Símbolo da música popular brasileira, a viola caipira, também conhecida como viola sertaneja, é a grande estrela da Orquestra de Violeiros de São Lourenço. Ela foi criada em 27 de junho de 2015 por Gustavo Costa, de 33 anos, que é professor de violão (popular e erudito) e de viola na Oficina de Música Erich Mathias, e é estudioso do instrumento.

Segundo Gustavo, o objetivo principal da orquestra é trazer a viola para esse mundo novo da música. “Nossa região, apesar de ter a simplicidade do interior e ter diversas zonas rurais, consome muito pouco a música raiz. Por exemplo, no interior de São Paulo tem mais de cem orquestras de violeiros”, conta. “É uma música linda, diversa...”, completa. “Não acho que haja preconceito, é o não conhecimento, de entender o que acontece. Essa cultura quase desfaleceu, a viola há 50 anos mal era um instrumento”, explica. 

O trabalho da orquestra consiste no resgate, na preservação e na difusão dessa música, que tem tudo a ver com a cultura mineira. E é possível dizer que esse trabalho está dando resultado: a orquestra é composta por 15 violeiros, com idades entre 10 e 60 anos. “O que atrai as pessoas é isso, o resgate desses valores, da vida simples do campo... O pessoal que se preocupa mais em ‘ser’ do que ‘ter’. E acho que essas pessoas, por não conseguirem mais resgatar isso, são atraídas pelos valores que essa música acaba trazendo”, afirma.

Sobre o início da orquestra, Gustavo conta que a ideia de formar um grupo foi justamente para divulgar mais a música. “Comecei a montar o curso de viola há mais ou menos oito anos e me deparei com o fato de não ter interesse do público, o que prova o não consumo da música caipira. Mas aí começou a aparecer um, depois outro... Parece uma coisa que pega, né? E foi espalhando. Já devo ter ensinado uns 35 violeiros nesse período”, orgulha-se. “Quando juntei um número legal de pessoas tive a ideia, e o pessoal atendeu. O padre Roberto Nogueira foi um grande incentivador nosso, um braço direito mesmo, nos cedendo espaço na paróquia para ensaiarmos. E ensaiamos lá até hoje. Foi o organizador da primeira apresentação da Orquestra e foi de uma importância crucial, além de ser um de nossos violeiros”, completa. 

Em um mundo constantemente bombardeado por tantas culturas diferentes, preservar a cultura caipira é algo essencial. “Essa cultura resiste, e a viola é símbolo dessa resistência. Temos integrantes de todas as classes sociais na orquestra, gente que mora e vive do campo, empresários, entre outros...”, explica Gustavo. Segundo ele, a reação do público quanto às apresentações da Orquestra tem sempre uma boa aceitação de todos.

As apresentações ocorrem em cidades da região e em São Lourenço, e em 2017, o projeto da orquestra é realizar dez apresentações na Praça Brasil, sempre trabalhando em cima da divulgação dessa cultura. “A música caipira foi muito depreciada, mas é extremamente rica. As pessoas associam essa música apenas a dois cantadores, cantando uma música simples, com harmonia simples e com o dialeto caipira, mas se a gente for analisar, temos vários fatores de sofisticação, a música caipira chega a ter 17 ritmos diferentes, o que é difícil encontrar em qualquer segmento da música brasileira. Cururu, catira, querumana, cateretê, cipó preto, guarânia, toada caipira, cana verde, batuque e moda de viola são alguns deles”, afirma.

Uma riqueza enorme de ritmos, o que faz o professor e regente da orquestra se aprofundar em entender por que esse tipo de música e instrumento não é tão consumida na região. “Um dos fatores foi a mudança de direção que se deu nas gravadoras e rádios, que deixam de ser um meio de divulgação da música popular para se tornarem outdoors, visando a música como produto de mercado" ,salienta.

E foi graças a Cornélio Pires que a música não se perdeu na história. Quando percebe na década de 20 a grande riqueza do estilo, ele resolve gravar as canções, mas uma gravadora, na época a Columbia, não se interessa. Ele então paga do próprio bolso para fazer cinco mil cópias, que rapidamente foram vendidas. A partir de então, a gravadora se interessa e começa a divulgar os artistas. “É uma música totalmente cronista, a gente sabe tudo que aconteceu com esse pessoal no campo, como era a vida na roça, as empreitas de boiada, os causos, os contos, porque eles deixaram tudo registrado”, explica. Depois, em 1980, começam os sertanejos românticos, como Leandro e Leonardo e Chitãozinho e Xororó. “E é nessa fase que a música começa a flertar com instrumentos e ritmos que não são tão característicos do cancioneiro raiz.” conta. 

A diferença entre a viola e o violão, é que a viola se utiliza de 10 cordas de aço (divididas em cinco pares) e o violão tem 6 cordas simples. “Fora o sabor que a viola tem, essa coisa do campo que já vem amarrado a ela...”, conta, enquanto dedilha o instrumento.  Canções como “Chalana” e “Índia” são  algumas das que mais agradam ao público durante as apresentações da orquestra. Apesar do repertório fechado, os músicos costumam atender aos pedidos da plateia.

Para quem quiser entrar na orquestra, ela está aberta. “Nosso objetivo é colocar 25 violeiros”, comenta. Os interessados podem procurar o professor na Oficina de Música Erich Mathias, no centro de São Lourenço. “Tem que aprender um pouquinho antes, procurar o curso, as aulas... Se já saber  tocar, pode fazer uma aula apenas para organizar. O grupo está aberto”, diz.



Fonte: Jornal Panorama

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